Asiáticos por toda parte: como lidar

Eles estão por tudo, normalmente em grupos numerosos e bastante barulhentos. Dizem que aqueles que souberem lidar com os orientais têm um trunfo precioso para enfrentar o mercado de trabalho do futuro. Eu venho há anos me empenhando nessa árdua tarefa de entender a tão milenar cultura asiática, que a muitos incomoda mas já não tem mais como evitar.

Longe de ser especialista no assunto, me arrisco aqui a dar alguns palpites que garantiram minha sobrevivência durante quase um ano em solo chinês. Foi uma experiência bastante intensa, mas deu tudo certo. Sobrevivi; não sem alguns hematomas. Eles ficarão sempre comigo, as lições eu compartilho aqui.

china

  •  Denominação

Em primeiro lugar, uma das generalizações mais equivocadas que a gente usa é justamente a que acabei de fazer: a do termo asiático. Parte da Rússia fica na Ásia e nela moram também xeiques árabes, judeus israelenses, muçulmanos paquistaneses e uma infinidade de povos que formam uns outros 50 países. Aqui trataremos dos asiáticos como o pessoal dos olhinhos puxados mesmo. E ainda assim, só esse território oriental abriga cidadãos de inúmeras etnias com os mais distintos dialetos e costumes. É muito simplista de nossa parte esperar que o padrão comportamental de um chinês seja igual a o de um japonês – que, aliás, tem uma antipatia enorme de um pelo outro. Generalizações deste tipo me fazem lembrar que, para eles, brasileiro e argentino é tudo a mesma coisa. Não né?

  •  Aglomerados humanos

Diante de um aglomerado humano asiático, aprendi que há duas alternativas: 1) entrar na briga pelo seu espaço ou 2) se afastar e assistir a disputa de camarote. Só não vale ficar de mimimi criticando a bagunça, porque não é a sua cara de nojinho que vai mudar o comportamento de bilhões de pessoas. Na fila de embarque do avião, por exemplo, de quê adianta ficar de pé se amontoando por meia hora? Eu espero eles se resolverem para depois me apresentar. Quando morava na China, porém, eu sabia que se eu quisesse andar sentadinha no trem teria que disputar meu assento a cotovelaços.

“Aquele lugar era meu!”

  •  Poluição sonora

A maior parte da Ásia é composta por pessoas e barulho. Constante e ininterrupto. Se o ruído o estiver impedindo de exercer alguma atividade, avalie a situação. Caso você seja a minoria incomodada, se possível, afaste-se. Se o zunzunzum estiver tomando uma proporção notoriamente inconveniente, experimente lançar aquele seu mais malévolo olhar de reprovação. Comigo funcionou. Recebi um olhar desses de um senhorzinho no ônibus aqui em Sydney, quando eu falava ao telefone com uma amiga (brasileiros também estão longe de ser o povo mais discreto viu?). Desde então, nunca mais fiquei de papo furado no transporte público daqui.

  •  #igualquenem

Os chineses são diferentes dos tailandeses, que por sua vez são diferentes dos cambojanos, os quais nada tem a ver com os coreanos, que nem de longe lembram os filipinos. Acredite: os chineses, na verdade, são diferentes até mesmo uns dos outros! E tem mais: da mesma forma que a gente acha eles todos iguais, eles também tem dificuldade de distinguir uma pessoa loira da outra e acham os negros idênticos entre si. Vai entender…

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Esses turistas se amarraram na criança diferente das deles.

  • Brasiáticos

Toda vez que você se sentir tentado a reclamar dos asiáticos, lembre-se que nós, brasileiros, temos algumas características em comum com eles. A começar pela fissura em fotografar tudo. Embarque numa excursão internacional e repare bem para onde mais apontam a maioria dos flashes e selfies. (A diferença é que a gente não pede para tirar foto com estrangeiros nem posa com o v de paz e amor.) Esses dias no avião, uma australiana me chamou a atenção sobre como os asiáticos desatam os cintos e começam a se enfileirar tão logo a aeronave estaciona. Para mim, esse pareceu um comportamento bastante familiar… Quando em grupo, nós brasileiros também estamos longe de nos comportarmos com a finesse de um lord britânico. Aliás, o que os ingleses devem achar disso tudo?

Achei que fazendo Vêzinho ficaria mais parecida com elas

Achei que fazendo Vêzinho ficaria mais parecida com elas

  • Como faz

A cultura americana e europeia tem uma influência tão grande sobre o modo de pensar ocidental que pouco nos ensinaram sobre como as coisas funcionam do lado de lá do mundo. Tudo que aprendemos, desde sempre, foi sob a ótica ocidental e acredito que por isso seja tão difícil assimilarmos os valores do oriente e eles os nossos. É preciso um entendimento cultural para o qual nunca fomos treinados. É preciso também muita paciência. E a compreensão de que por trás do tão peculiar comportamento asiático sempre há um governo rigoroso, uma incrível densidade populacional, hábitos culturais únicos – ou sem-vergonhisse mesmo (tipo nosso jeitinho brasileiro versão oriental). Essas explicações não necessariamente justificam o comportamento muitas vezes invasivo deles, mas nos permitem no mínimo ser mais tolerantes. Se faltar paciência, procure respirar fundo e incorporar um zen budista. Assim como três quintos da população mundial, ele também veio da Ásia.

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