A melhor parte da vida no exterior que ninguém conta

Mesmo que não tenhamos plena consciência, muitas decisões que tomamos e caminhos que seguimos são fortemente influenciados pelo meio que nos cerca. Em casa, pais projetam na gente seus os valores, frustrações e até preconceitos. Na escola, reproduzimos fórmulas matemáticas, físicas e químicas do mesmo jeito que o sistema educacional cria cópias de nós mesmos, enquanto nos ensina história, geografia e a querer passar no vestibular. Na mídia, enxurrada de dicas de como se comportar na entrevista de emprego, no primeiro encontro, na cama… Na firma, seguir as políticas da empresa não é suficiente, precisamos também moldar nossas atitudes ao que esperam da gente – mesmo que nem sempre concordemos com elas.  

Somos ligeiros ao traçar mentalmente o perfil de um desconhecido com base apenas nas informações do cargo que ele ocupa, academia que frequenta ou carro que dirige. Embora eu acredite que sejamos muito mais frutos das experiências que vivemos e como lidamos com elas, também é inegável a influência que o meio externo exerce sobre nós.

E se considerássemos um cenário hipotético, onde as pessoas não tenham a menor ideia de quem você é, de que família vem, com quem você namorou ou em que cidade cresceu? Também não teriam a mínima noção da reputação da faculdade onde estudou, e provavelmente nunca tenham ouvido falar nas empresas onde você trabalhou?

Esse cenário hipotético existe. Fica além das fronteiras do seu país. Para chegar lá, basta um passaporte com visto e alguns anos de economia. Na bagagem, é imprescindível que leve desapego; só ele pode deixar ir crenças e convicções nutridas (e confirmadas) durante uma vida inteira. Também se recomenda carga extra de disposição. Muita disposição para descobrir o mundo; não esse que nos cerca, mas o que está dentro de você, esse universo tão inexplorado…

Ser “ninguém”, mesmo já tendo tido umas 2 ou 3 décadas de existência, é um pouco assustador. Mas também pode ser libertador, como bem retratado por Michael Onfrey:

A viagem supõe uma experimentação em nós tem a ver com exercícios costumeiros entre os filósofos antigos: o que posso saber de mim? O que posso aprender e descobrir a meu respeito se mudo de lugares habituais e modifico minhas referências? O que resta da minha identidade quando são suprimidos vínculos socias, comunitários, tribais, quando me vejo sozinho, ou quase, num ambiente hostil ou pelo menos inquietante e perturbador?

Assim é a vida do estrangeiro: uma grande chance para entrar em contato genuíno consigo mesmo. Mesmo que isso possa ser benéfico no âmbito pessoal, voltar à estaca zero no campo profissional parece estar longe de ser uma vantagem. É difícil acreditar que nossa carreira possa evoluir uma vez que perdemos as principais validações que tínhamos no Brasil. Acontece que, justamente por isso, pode aí residir uma oportunidade incrível.

Já que o recomeço é necessário, não seria esse o empurrão que faltava pra tocar aquele projeto que sempre ficou engavetado? Pode ser que você tivesse uma inclinação à culinária, à vida saudável, sempre quis aprender fotografia, surfe ou maquiagem. Talvez você tenha interesse ou vocação em algo que ainda nem descobriu, justamente porque não se deu a chance de explorar novos hobbies, encarar desafios, descobrir formas de complementar a renda ou de ter uma vida mais cheia de propósito.

Quer queiramos dar continuidade à nossa área de formação no Brasil ou mudar de carreira, o recomeço é inevitável. Reinventar-se é preciso. Ainda que as obrigações financeiras longe de casa sejam um grande desafio, milhares de brasileiros admiráveis provam diariamente que é possível se sustentar dignamente com qualquer tipo de atividade exercida em países desenvolvidos.

Cabe a nós decidir se passaremos nosso período no exterior se queixando das desvantagens de ser estrangeiro, preenchendo o tempo apenas com um emprego que pague as contas ou perseguindo nossos interesses genuínos (ou ao menos tentando descobrir quais eles são).

Se todo começo é difícil, o recomeço pode ser pior ainda.

Ou uma nova chance para finalmente fazer melhor.

Texto e imagem: Natália Godoy

Esse é mais um texto da série Vida de Labour do blog Sua Conterrânea. Curtiu? Então você também pode gostar desse:

32 verdades dolorosas (mas hilárias) sobre subemprego no exterior

 

3 thoughts on “A melhor parte da vida no exterior que ninguém conta

  1. Oii xará! Adorei o texto! Parabéns pelo blog, gostei muito dele, porque nos conta o que se passa realmente na cabeça de um imigrante, que nem tudo são flores, mas o espinho está em como você enxerga sua nova situação ali. Atualmente estou me organizando para sair do Brasil, ainda não escolhi o destino, mas morar fora sempre foi meu sonho, desde as aulas de geografia na escola kkkk, seu blog tem me ajudado muito na pílula “coragem” a ser tomada diariamente! kkkk

    • Ôôôôô Nati (nome lindo né?), na vida nem tudo são flores, e no exterior as coisas não são diferentes mesmo. Eu sempre digo que nos livramos de uns problemas mas ganhamos outros hehe! E vaaaaai mesmo! Morar fora, na minha opinião, é uma das experiências mais enriquecedoras a que podemos nos submeter. Feliz em participar do teu processo de encorajamento 🙂 Boa sorte, mande news, bjão!

  2. Caraca, como só fui chegar agora ao seu blog? Também tenho um, também morei na Austrália, e passei por mais dois intercâmbios. Mas o que você escreveu neste texto resumiu meu sentimento em relação a todas essas experiências. Par-ra-béns!

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