O dia em que eu me reapaixonei pelo Brasil

Hábitos Brasileiros 4

O dia em que eu me reapaixonei pelo Brasil não foi durante a Copa do Mundo, nem estava passando férias na Bahia. Meu time não havia ganhado jogo algum e não surgiram índices de que a violência tivesse diminuído ou a educação melhorado.

Me reapaixonei pelo Brasil em meio a protestos contra o governo, crise da Petrobrás, alta do dólar, dos juros e inflação. Clima de insatisfação geral, vindo de todos contra tudo. E foi nessa maré de desafetos que reatei meus vínculos com a pátria amada. Foi necessária uma tragédia pessoal – a perda do meu pai – para que aflorasse em mim uma nova perspectiva sobre meu país.

O comunicado sobre a morte do meu pai chegou até mim, aqui do outro lado do mundo, onde moro há quase 3 anos, no fim da tarde de uma quinta-feira qualquer. Após um cansativo dia de trabalho, receberia uma das notícias mais tristes da minha vida. Um soco no estômago difícil de digerir, cuja distância só tornava a dor ainda mais intragável. Mesmo incrédula, precisava colocar a cabeça no lugar para ao menos conseguir fazer as malas e embarcar o quanto antes naquela que seria a mais triste e interminável viagem já feita por mim.

Ao mesmo tempo em que tentava processar o ocorrido, minha cabeça nocauteada se questionava que diabos eu estava fazendo tão longe de casa. E que língua era essa que eu precisava falar mas que não saía espontaneamente? Faltava vocabulário e sobrava revolta.  Os voos e conexões eram longos demais para uma paciência tão curta. A alegria e empolgação dos demais viajantes contrastava com a angústia na qual eu estava imersa.

Ao chegar ao Brasil, porém, a dor que sentia foi amenizada pelo mais apaziguador conforto de estar, finalmente, em casa, entre os meus, junto àqueles com quem compartilho da mesma linguagem verbal, cultural e emocional. Por mais inconsolável que fosse a situação, eu estava no lugar certo, na hora certa. Mesmo que eu achasse que os outros precisavam de mim, na verdade, quem precisava deles eles era eu.

No decorrer das 3 semanas em que passei no Brasil, eu já esperava que mais cedo ou mais tarde todas minhas indignações de sempre viriam à tona. Dessa vez, porém, parece que fiz as pazes com tudo que sempre me incomodou no Brasil. Desenvolvi uma tolerância com relação aos problemas que, anos antes, teriam influenciado minha decisão de deixar o país.

O atendimento continuava bem aquém do que deveria ser e a gasolina pelo preço da morte, mas reparou como nossas bananas são deliciosas? Quanto ao serviço ruim, a atendente certamente não estava no melhor dos seus dias, quem nunca né? A mídia só noticiava tragédia. Mas era também o primeiro capítulo da nova novela, e vou poder assistir com minha mãe! Além disso, aquele 3G bem difícil de engrenar era a oportunidade que eu precisava para me desconectar um pouco…

No Brasil também não tinha aquele meu Thai baratinho favorito, mas olha quanta diversidade nesse buffet ou, melhor ainda, comida de mãe! E esse trânsito? É realmente um problema que assola todas grandes cidades do mundo, mas duvido que elas tenham um pôr do sol tão bonito quanto o nosso. E que montanhas! Não entendo porque todo mundo quer ir embora mesmo com essas montanhas…

Se esse otimismo todo se deu por conta da perda de uma familiar tão próximo, ou do pouco tempo que passei no Brasil, não sei ao certo. Pode ser também que já tenha desistido do meu país, por isso nenhum dos seus problemas me incomode mais. Ou que realmente meus vínculos afetivos e identificação cultural sejam tão intransponíveis que anulem qualquer escândalo e roubalheira política.

Ao partir, todos deixam para trás uma vózinha frágil, sobrinhos fofos, a melhor amiga, uma tia querida ou um cachorrinho de estimação. Até aquele irmão pentelho fará falta e, da mesma forma como você não admitia que falassem mal dele, terá dificuldades em tolerar gringo criticando seu Brasil. No nosso país, temos vínculos com os quais dificilmente criaremos iguais em qualquer outra parte do mundo, por melhor que seja nossa capacidade de adaptação. E mesmo que desenvolvamos um novo e importante ciclo familiar e de amizades, nenhum deles será capaz de contar suas birras infantis, lembrar do vexame que foi seu primeiro porre, dos perrengues da escola, e dificilmente vão rir daquelas mesmas bobagens de sempre.

Se realmente somos as coisas das quais gostamos, sinto que no novo país é preciso um grande esforço para descobrir seu comediante favorito, o autor que sempre inspira, o jornal imparcial ou até mesmo o político mais detestável. Em contrapartida, para mim é natural eleger quais famosos seguir no Instagram, meus entrevistadores preferidos e os memes mais divertidos do YouTube – quase sempre brasileiros.

Quem está longe do Brasil adquire uma nova perspectiva sobre ele. Da mesma forma que a nossa família, somos os primeiros a apontar o dedo para seus problemas, mas nos magoamos com as críticas vindas de fora. Por um lado, a maioria dos novos países para onde nos mudamos reforçam deficiências e pontos de melhoria do Brasil. Por outro lado, a distância amplia a lente que valoriza nossas raízes mais profundas e vínculos insubstituíveis.

Nem Londres, Nova York, Roma ou Paris. Independente de protestos ou partido político no poder. O único lugar no mundo capaz de proporcionar conexão tão genuína e profunda, para mim, sempre será o Brasil.

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