Paga bem, que mal tem?

É fácil topar ser garçom na Europa quando o salário é compatível ao que você tinha como assistente sênior de não-sei-o-quê, ou analista pleno de não-sei-o-quê-lá no Brasil. Exercer um subemprego no exterior pode até mesmo ser desafiador o suficiente, especialmente quando nos vemos, muitas vezes pela primeira vez na vida, responsáveis por prover nosso próprio sustento, sem o amparo da rede familiar e dos contatos que ficaram no Brasil. Logo, encaramos “qualquer coisa” enquanto reaprendemos a falar, compreendê-los, interpretar os códigos culturais locais e o mercado de trabalho.

Lembro bem do primeiro intercâmbio que fiz, numa cidadezinha vizinha de Las Vegas. Lá, intercambista bem sucedido era aquele que conseguia chegar ao cargo de garçom. A gente aplicava prá vaga de assistente de garçom (busser), já mirando na promoção. A segunda vaga mais procurada era de vallet park – não pelos salários em si, e sim pelas gorjetas (ah sim, e a chance de dirigir carrões). No fim das contas, todo mundo já saia do Brasil felizaço com o emprego de camareiro(a) – e, acreditem, e a gente se divertia horrores!

Aqui na Austrália, o pessoal em geral começa na cozinha, na vagaque recebe o pomposo nome de dishwasher – que no linguajar comum pode ser traduzido como lavador de louças. Esse é o cara que quase sempre vira melhor amigo do kitchen hand, outro faz-tudo da cozinha. Em ambos casos, o pagamento por hora é bem respeitável.

Sempre digo que, se salário fosse tudo que importasse, eu já estaria graduada com ramo de tráfico de drogas. Mas já que isso é ilegal, nunca nem cogitei. Outra área onde também pode rolar muita grana é o da prostituição. Nesse caso ninguém pode te prender por “vender” seu corpo, e definição de moral é muito particular. Se eu faria? Jamais. Logo concluo que não, não faço qualquer coisa por dinheiro. Tenho inclusive a impressão de que, quanto mais pesado for o trabalho (física ou moralmente), é provável que maior seja o salário, pra compensar o desgaste. Como se pagassem bastante para você exercer um cargo de alta demanda física, uma vez que o corpo humano tem vida útil limitada nessas atividades.

Topar o tal dos “subempregos”, mesmo que por falta de opção, é parte saudável do intercâmbio e sem dúvida nos faz evoluir como pessoas e profissionais. Já está comprovadíssimo que lavar louça, limpar privada ou fazer sanduíches não tira a dignidade de ninguém. (Palavra de quem já exerceu as 3 atividades.)

O risco reside no fato de que no exterior, muitas vezes, o ganho financeiro é maior sendo barista (ou tantos outros empregos como esse) do que trabalhando em um cargo básico de escritório. Dependendo do momento e prioridades, vale mais a pena pegar no pesado mesmo. O perigo é quando focamos apenas nos ganhos financeiros e ignoramos as perdas na nossa evolução pessoal e realização profissional. Já flagrei a mim mesma reclamando de problemas triviais do meu trabalho para uma pessoa que lidava com desafios bem mais complexos do que os de uma atendente. Isso não quer dizer que minhas questões eram menos importantes do que as dela, mas eu realmente queria ocupar minha energia (e minhas conversas) com preocupações tolas? Se é verdade que somos do tamanho dos nossos problemas, percebi que, depois de um certo tempo, um trabalho sem desafios e repetitivo podia estar me apequenando, ao invés de me engrandecer…

Assim que nossas necessidades básicas de abrigo, alimento e comunicação forem supridas, o estágio seguinte é de avaliar nosso nível de satisfação profissional. Nesse caso, o emprego do momento (seja ele sub, mega, ou simplesmente um emprego) está colaborando para te tornar a pessoa e profissional que você quer ser, ou apenas te deixando tão pobre, mas tão pobre… que só tem dinheiro?

Segundo texto da série Vida de Labour do blog Sua Conterrânea: pelo próximo mês, toda semana, um texto novo sobre emprego e carreira no exterior 🙂 

Texto e imagem: Natália Godoy

12 thoughts on “Paga bem, que mal tem?

  1. ” ou apenas te deixando tão pobre, mas tão pobre… que só tem dinheiro?”

    Nossa, não poderia achar um exemplo melhor. É isso aí. Tem umas coisas que a gente faz nessa vida que a única coisa que traz é dinheiro mesmo. A gente faz 30 e começa a repensar a vida toda. Outros valores, outros objetivos, outro estilo de vida.

    Adorei o texto!

  2. Daniel Pongitor says:

    Bela reflexão! Realmente a questão de emprego e vida profissional é muito mais que salário, em qualquer lugar do mundo.
    Comecei a acompanhar seu blog e snapchat (engraçadíssimo, diga-se de passagem hahaha) há algumas semanas e os textos tem me ajudado muito a esclarecer algumas dúvidas e a ficar mais tranquilo em relação à outros pontos.
    Estou de mudança para Sydney com a minha esposa em Dezembro e a ansiedade e frio na barriga estão cada vez maiores. Mesmo indo com Visto de Residência Permanente 189, é difícil evitar aquele pensamento de “e se eu não conseguir um emprego (qualquer um) logo?”.

    Vou continuar acompanhando a série!

    • Ôôô Daniel, sinto lhe informar mas o frio na barriga só vai aumentar até Dezembro… hehe! Mas podem vir que tem emprego! Com inglês, vcs conseguem algo rapidinho! Com inglês E sorte, vcs conseguem algo LEGAL rapidinho 🙂 Um passo de vez né? Boa sorte ao casal, fico feliz em ajudar, e brigada por acompanhar!

  3. Anderson Ávila says:

    Excelente texto! Estou com mindset para arrumar às malas em busca dessa terra em Jan/Fev-18. Tenho 1 ano à frente para capitalizar e organizar as ideias, como todo projeto tem que ser bem pensado, já que “voltar” não está contemplado nesse projeto. rsrsrs, sigo acompanhando e aprendendo.

  4. Thais says:

    Perfeito Natália! Exatamente o que eu penso. Essa experiencia é incrível, totalmente desafiadora. Difícil ficarmos na nossa zona de conforto (pelo menos para mim agora nesse início), e o crescimento é imenso, mas para muita gente, assim como para mim, existem outros objetivos a serem traçados no nosso Brasil quando essa experiencia terminar, e nem por isso quer dizer que estamos desistindo da “vida perfeita” que temos aqui!
    Coragem e sorte para todos, independente do caminho a ser escolhido ❤️

  5. Nataly Chaves says:

    Caramba é exatamente o que sinto dez anos dedicados a ser uma analista pleno e hoje sinto que não fiz nada, detalhe fiz 30 em dezembro 2015? Kkkk será que é culpa dele..rsrs
    Enfim VC falou tudo que eu senti e agora vivo sonhando no dia em que vou embarca pra Austrália buscando nova vida acho que VC me entende.

    • Ôôôôô se entendo, Nataly (e os 30 tem tudo a ver sim hehe)! Tenta mudar sua mentalidade a respeito de sentir que “não fez nada”. Acumulaste uma baita experiência. Que venham as próximas! Bjão!

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