A proposta mais indecente que já recebi de um estranho

proposta

Quinta-feira, 4 horas da tarde, calorzão de Fevereiro beirando os 40 graus. Ritual de chegada na praia já concluído, estava lá, acomodada sobre minha canga, esticada na areia, benzuntada de protetor da cabeça aos pés. Mexia no celular. A praia estava relativamente cheia pros padrões australianos. Vejo vindo em minha direção em menino de uns 19, 20 anos:

– Com licença, posso lhe fazer uma pergunta meio esquisita?

Vixe, cantada de gringo explícita assim, em plena luz do dia? Vinda de menino novinho, só pode tá de sacanagem. Pensei eu com meus botões.

Olhei pra direção de onde ele vinha, esperando encontrar um grupo de adolescentes tentando controlar a gargalhada.

– Sim… – respondi em tom duvidoso, na defensiva.

– Você pode passar protetor nas minhas costas?

Não tenho ideia da cara que fiz diante da pergunta. Por algum motivo idiota, fiquei morrendo de vergonha. Só pensava: “Por que eu? Por que eu?”. Olhei mais uma vez ao redor pra ver se não era pegadinha mesmo, e levantei pra ajudá-lo. (Não tinha tempo pra pensar em alguma desculpa plausível).

Poucas coisas podem ser tão constrangedoras quanto passar protetor nas costas de um estranho… Ele se curvou todo (também não entendi) e eu esparramei o protetor, rapidinho, toda sem jeito. Deixei a lombar e os ombros pra ele mesmo se virar, numa tentativa de evitar aproximação ainda maior.

Não bastasse meu constrangimento, ainda tava com as mãos cheias de areia e o protetor dele tinha textura de base pro rosto… (por precaução, dei uma olhada no rótulo pra ter certeza de que a pegadinha não estava ali).

– Desculpa pelas minhas mãos cheias de areia – eu disse.

– Melhor areia do que se queimar todo – ele falou, inofensivo, com um sotaque meio alemão eu acho.

Daí ele agradeceu e voltou pra toalha onde estava sentado. Sozinho. Não xavecou, só queria mesmo um par de mãos que alcançassem áreas em que nossos corpos não foram projetados pra alcançar.

Passado meu espanto inicial, fiquei morrendo de arrependida pelo serviço porco que fiz naquelas costas brancas. Se ele se queimasse, a culpa seria toda minha. Se ficasse todo manchado, praguejaria contra aquela menina na praia que não sabia nem esparramar o protetor direito.  

Ciente da inocência dele, tentei estabelecer outro contato, para quem sabe oferecer meu protetor. Ele não olhou de novo pra mim. Ao contrário, logo foi embora, me deixando lá, a espera de uma nova oportunidade para ajudá-lo, me questionando se ele havia ficado com raiva pela minha má vontade em ajudá-lo.

Ele, com medo de se queimar. Eu, com medo de tocar em estranhos.

Ele, querendo se proteger do sol. Eu, querendo me proteger de mim mesma.

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