Sobre 4 rodas na mão inglesa – 1/2

dirigir

Mesmo que eu tenha sido reprovada no primeiro exame de direção, sempre me considerei uma motorista confiável, relativamente boa ao volante. Com a carteira na mão aos 18 anos, para mim ela não apenas dava o direito de dirigir legalmente como também representava toda independência e autonomia trazida pelo possante. Dirigia prá cima e prá baixo, fosse com namorado palpiteiro, mãe gritona ou sozinha mesmo. Não sucumbia diante de nenhuma baliza apertadinha (mas confesso que torcia para não pegar sinal vermelho na ladeira).

Com uma boa trilha sonora, enfrentava desde free-ways vazias até os mais tediosos quilômetros de congestionamento – os quais sempre me faziam duvidar de todas possíveis vantagens já atribuídas a um carro.

Tinha no currículo até mesmo uma BR 116 sozinha, abaixo de uma tempestade assustadora, daquelas que não há velocidade turbo de limpa-vidros que de conta. Com a bravura de uma adolescente destemida, dirigi feito uma senhorinha de 84 anos. Cheguei em casa com a dor muscular da velhinha mas o feito de uma jovem corajosa. Isso aconteceu há alguns anos, no trajeto de Garopaba até Porto Alegre. Até então teriam sido os 400 quilômetros mais tensos da minha modesta vida sobre 4 rodas. Até chegar na Austrália.

Além de ser muito grande, Sydney é espalhada. Quando morei em Londres, lembro bem o quanto aquelas estações de trem a cada esquina facilitaram, e muito, a minha vida. Bem, a Austrália é ex-colônia britânica, logo deve ter herdado uma linha ferroviária tão abrangente quanto à da antiga metrópole, pensei eu. Além disso, que país desenvolvido não possui sistema de transporte público de dar inveja? Seria bem tranquilo se virar e, de quebra, estaria livre de vez dos congestionamentos urbanos que terrorizam qualquer grande cidade no mundo.

Chegando aqui, vim morar nas praias do norte de Sydney. Só conseguia enxergar ônibus e um cais bem movimentado ao meu redor. Descobri que da Inglaterra, a Austrália só havia herdado a confusa mão inglesa. Ok, o trem de três andares e a galera vidrada nos seus tablets nos ônibus amenizaram minhas frustrações iniciais, mas… cadê a estação de trem mais próxima?

Baixei o aplicativo dos transportes daqui e a cada pesquisa ele me sugeria uma combinação multimodal bizarra de meios até chegar ao meu destino.  Para ir à faculdade, por exemplo, minha saga começava na bicicleta, passava pelo ônibus e terminava na estação de trem. Se o dia estivesse bonito, podia até optar pelo passeio de barco entre as pedaladas e o trem.

Quando finalmente consegui o tão sonhado “emprego na área”, não haveria empecilho que iria me desmotivar. 40 quilômetros de distância de casa. Quase $20 só de pedágio. Puxa, as praias de norte são longe né?

Mesmo que algumas das minhas principais motivações para deixar o Brasil estivessem relacionadas à infra-estrutura precária e distâncias percorridas entre casa e trabalho, minha vida na Austrália era um novo começo, logo não há tempo há perder nem esforços a medir. A maior distância já havia sido percorrida, afinal. Pior do que aquelas vinte e tantas horas tentando se acomodar no avião não haveria de ser.

Precisava apenas comprar um carro novo, ou melhor, um carro. O primeiro da minha vida. Por mais esquisito que pareça, sempre temi esse momento, ciente da complexidade que a compra de um automóvel envolve. Não tinha a mínima ideia do número de cavalos que um carro precisa ter (aliás quem precisa de cavalo são carroças!), nem sabia a partir de quantos quilômetros um veículo passa a ser considerado inviável, muito menos conseguia definir em números precisos o que torna um carro econômico. Sempre tive a sorte de poder dirigir o carro que estivesse à disposição na garagem dos meus pais (e o azar de ter um irmão para disputá-lo comigo). Tudo que sabia era que os pretos estão sempre sujos, os pequenos são mais fáceis de estacionar e, para mim, precisa ter ar condicionado, direção hidráulica e vidro elétrico (se é que ainda existem carros com manivela). Me viro tanto na marcha automática quanto na manual, uma habilidade que poucos dominarão num futuro próximo, rá!

A ajuda do namorado (que dividiriao carro e as prestações comigo) esclareceu as dúvidas iniciais, mas trouxe uma série de outros problemas. As marcas pelas quais muitos australianos prezam são das montadoras japonesas, aparentemente as europeias não tem uma reputação tão boa por aqui. Ele queria um carro grandão, enquanto que, para mim, quanto menor, mais fácil. Aliás, qualquer um, baratinho, me faria feliz. Mas para ele carro era coisa séria.

Superadas as discussões, carro comprado, namoro ainda de pé. Agora só precisava praticar. Apertem os cintos!

Foto: @peace_love_light

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