Um dia típico (de merda) na nossa viagem pela Austrália

Viagem de carro Australia

Kane sentado no nosso lar

Acordei com o motor do carro vizinho. Aparentemente 5 horas da manhã é um horário relativamente popular entre os campistas na Austrália pra aquecer o motor do carro – que, aquela hora, mais parece um helicóptero prestes a levantar voo. Não que isso seja da minha conta: cada um acorda e pega a estrada no horário que bem entende, mas ficar uns 20 minutos no escuro dando ré na tentativa de engatar o carro no trailer é considerado, de acordo com a Etiqueta do Campista que tem Bom Senso, uma puta sacanagem. As manobras do motorista sem noção quase sempre são acompanhadas pela voz de uma esposa flanelinha que guia os movimentos do marido até que ele acerte o buraco. (Poderia ser obsceno, se não fosse tão irritante.)

Com sorte, consegui pegar no sono de novo. Até ser acordada pela minha bexiga. Dessa vez não podia culpar os vizinhos, e sim a minha preguiça por ter ignorado aquele sinalzinho de urina que se apresenta todas noites lá pelas 22 horas – e que vem com toda força por volta das 6 da manhã. Se ao menos o banheiro ficasse aqui por perto eu poderia ir no escuro mesmo, tateando paredes, pra não me acordar, mas a verdade é que já estamos há mais de 2 meses viajando de carro e ter uma privada com descarga à disposição já é luxuoso o suficiente. O banheiro mais próximo do dia fica há uns 2 ou 3 minutos a pé.

Ao chegar lá constato que, a medir pelo tamanho da fila, o despertador de bexigas do camping acordou geral – ou a preguiça de liberar o xixi das 22 é um mal que assola grande parte dos viajantes da região. Me junto àquela gente de bexigas cheias e intestinos saudáveis (a saber pelas sonoras flatulências vindas das cabines). A fim de não causar ainda mais constrangimento, evito contato nos olhos daqueles que (finalmente!!!) liberam o banheiro, e em 1 minuto faço meu ágil xixi, sem nenhum ruído adicional, só pra dar o exemplo.

Enquanto meu parceiro de viagem (e marido, Kane) começa a maratona de organizar nossa mudança do dia, cumpro com minha obrigação moral de lavar a louça. Empilho tudo e com cuidado carrego até a cozinha mais próxima. Meu humor, que já não vinha às mil maravilhas, cai exponencialmente diante do cenário que estou prestes a encarar: enquanto uma senhorinha lavava a louça, outra mulher aguardava pacientemente pela sua vez. Ambas me saudaram com o tradicional good morning alegre daqui. Tem dias que o fato dos australianos serem queridos, simpáticos e felizes me irrita ainda mais – já que isso me tira o direito de os criticar. Me esforço, mas não vejo motivo pra ser feliz numa fila pra lavar louça.

Finalmente chega minha vez e, ao contrário daquelas mulheres, não disponho de um filho ao meu lado pra secar meus pratos – muito menos minhas lágrimas. Marido até podia dar uma força, mas a lavagem de louça é uma das poucas oportunidades que temos de dar um tempo um do outro. Enquanto molho a barriga naquela torneira mal acabada, sinto olhares de reprovação das senhorinhas. Tenho certeza que elas julgam o fato de que, ao contrário delas, eu enxaguo o detergente dos pratos, talheres e copos. Ainda assim, prefiro olhares de julgamento de gente que nunca mais vou ver do que do meu marido; é justamente por isso que não lavo a louça no trailer: pra poupar água sim, mas acima de tudo, o casamento.

O Kane me aguarda ansiosamente para juntos fecharmos o trailer e colocarmos o barco em cima dele (do trailer, não do Kane). Depois de tanto abrir e fechar nossa casa portátil a gente já domina a arte de fazê-lo sem brigar.

Enquanto isso, a água ferve na chaleira pra fazermos o sagrado café nosso de cada dia. Gosto do meu com leite que bato numa maquininha até ficar bem cremoso. Essa maquininha encontra-se dentro da caixa onde a comprei, que está dentro da caixa de itens da cozinha, que por sua vez encontra-se dentro do porta-malas, embaixo da caixa de ferramentas, atrás da churrasqueira… Dane-se a porcaria do leite cremoso!

Café (preto) tomado, lanches pra viagem empacotados, só precisava ir ali escovar os dentes e estaríamos prontos pra finalmente pegar a estrada.

– A escova e pasta estão na porta do carro – me avisa o Kane com ares de quem já domina com maestria a arte de acampar.

Teria sido perfeito, se as chaves do banheiro também estivessem sob fácil alcance. Na verdade elas não se encontravam nem mesmo ao alcance dos nossos olhos: Reviramos bolsos, sacolas e malas, procuramos embaixo do carro, em cima das árvores e nada da bendita chave. Acredite: foi preciso montar acampamento tudo de novo (e comprovar falsa a teoria de que fazemos isso sem brigar) pra encontrar a chave lá, repousando, bem folgada, sobre o sofá. Me achando a espertalhona, aproveitei que a casa estava montada pra pegar meu livro que havia ficado ao lado da cama, e me manteria ocupada já que, a essa altura, conversar com meu parceiro de viagem não era mais uma hipótese a ser considerada.

Uma hora depois do programado, finalmente estávamos prontos pra partir rumo ao destino seguinte. Sento aliviada no carro, disposta a deixar pra trás não só a cidade mas também todas as agruras enfrentadas naquela rápida e caótica manhã. Encho as xícaras com água fervida, depositando agora no chá a expectativa por me fazer ter um dia melhor. Acho que vou de chá verde pra digestão, com um pouquinho de hortelã pra refrescar e depois arrebato com um de camomila pra me acalmar. Abro o porta-luvas e não vejo nada de chá… Os saquinhos deviam ter ficado em algum lugar na cozinha, já fechada, lá atrás, na casa compacta… E era recém 9 horas.

Texto e imagem texto: Natália Godoy

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