Braustraliana

Olhando pra mim no passado
Vivendo aqui do outro lado do mundo
Percebo que tanta coisa mudou
Que cabe aqui um questionamento profundo

Teria sido a distância da família
Ou a falta de feijão?
Talvez nenhum dos dois
E sim o processo de adaptação

Naquele canto do planeta, salão de beleza era visita frequente
Agora, não entro lá nem mensalmente
Os preços são os olhos da cara
Ficar bonita é coisa rara

Ainda bem que aqui ninguém liga
Pro esmalte descascado ou na perna que pinica
Mas na falta de caráter, aí sim a coisa complica

E o limite de velocidade
Aqui sempre tão controlado
Até parece que não sabem
Que brasileiro tá sempre atrasado

Dias desses vi uma mulher
Se equilibrando num salto alto
Não tive saudade nenhuma
Da minha bota azul cobalto
E tem coisa melhor
Do que poder andar descalço?

Mas a vaidade não me deixou por inteiro
É questão tempo e dinheiro
E pelo poder que um bom rímel dá
Vale a pena economizar

Volta e meia me pergunto:
Se estivesse no Brasil,

Continuaria no ambiente corporativo?
Ou teria fugido feito bandido?

Ficaria braba com cantada?
Ou desfilaria siliconada?

Usaria legging colorida?
Ou roupa menos divertida?

Daria tudo pra mexer no celular do namorado?
Ou apenas nele confiado?

Haveria algum hobby desenvolvido?
Ou o trabalho me consumido?

Daria passagem naquele trânsito indecente?
Ou colaria no carro da frente?

Não sei se estou me adaptando
Ou cada vez mais me afastando
Da linda cultura brasileira
Mas é melhor poder ser várias
Do que uma só a vida inteira

6 thoughts on “Braustraliana

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