Nua e crua: a verdadeira razão dos meus banhos tão demorados

 

Tiro toda roupa, prestes a cumprir meu ritual diário de desnude corporal e limpeza mental. Certifico-me de que a toalha estará ao alcance do meu corpo molhado assim como todo indivíduo deve checar a presença de papel higiênico antes do início das atividades. Disponho xampu, condicionador e sabonete lado a lado, como se fossem a plateia do espetáculo que esta prestes a começar.

Giro a torneira cujo centro vermelho remete à ideia de fogo, porém ao invés de chamas sou brindada com um jato de água quente. Com a torneira ao lado amenizo o calor escaldante. Aqui na Austrália, a torneira azul fica do lado direito, assim como o volante nos carros. Não lembro se no Brasil a posição das torneiras também obedece à convenção do trânsito – mas sei que tanto lá quanto cá me detenho por uns instantes na laboriosa tarefa de atingir a temperatura ideal. Ela não deve ser tão quente a ponto de dar a sensação de que estou adentrando a sucursal na Terra do que deve ser o inferno, nem tão fria a ponto de me fazer tomar um banho apressado. Se água morna não serve nem pro chá, como dizem, tampouco pro meu banho. Admito, é sutil a arte de ser um termostato humano.

Começo o ritual pelo topo, esfregando meu o couro cabeludo com a precisão de um massagista Tailandês, incapaz de competir com a delicadeza de todos cabeleireiros aos cuidados de quem essa cabeleira já deleguei. Os firmes movimentos circulares que espalham o xampu também são responsáveis por acionar pontos no cérebro a partir do qual tudo se inicia. A medida em que espumas vão se formando, a mente começa a borbulhar lembranças do dia vivido. As bolhas surjem juntamente com pensamentos e estouram na mesma velocidade em que eles se vão.

Enxáguo o xampu para em seguida repetir a operação, dando espaço a novas ideias. Durante o enxágue me certifico que, ao eliminar qualquer resíduo de xampu, ao ralo também irá tudo que nesta cabeça não deve ficar.

É geralmente na parte da hidratação capilar que a vida parece fazer mais sentido. Deve ser por causa de algum desses ingredientes de nome esquisito que colocam no condicionador para cabelos secos ou na máscara para cabelos molhados. Talvez o aroma de camomila, das frutas silvestres ou da manteiga de karitè sejam os responsáveis por aflorar as ideias malucas que até então escondiam-se sob os emaranhados que aos poucos desembaraço.

Dizem as instruções que é preciso deixar o creme agir por alguns minutos. Fabricantes mais sistemáticos instruem que 3 são necessários. Um dia ainda hei de levar um relógio pra dentro do box comigo. Nunca sei se obedeço com precisão o tempo recomendado, embora saiba que, a medir pelos banhos demorados que dizem que tomo (e até algumas discórdias que eles já provocaram), suspeito exceder os 3 minutos de maneira significativa. Juro que já conheci pessoas que tomam um banho inteirinho em 3 minutos. Nunca vou entender como essa gente consegue administrar a vida.

Concluo meus frutíferos pensamentos. Finalizo alguns planos de ação que nunca colocarei em prática. Elaboro soluções para problemas inventados de eventos que talvez nunca aconteçam. E selo tudo isso sob o aroma de um cheiroso sabonete composto de 3/4 de creme hidratante e 1/4 não faço ideia do quê. Percorro aquela barra branquinha pelos meus ombros, agora mais leves, e a arrasto por todo o prolongamento desse corpo tão perfeito – mas o qual eu teimo que queria que fosse diferente. Lembro do que diz essa mesma marca de sabonete sobre autoestima feminina, e assim me amo um pouco mais, a medida que me ensaboo. Não deixo nenhum canto passar despercebido, retorço daqui, levanto acolá, garantindo assim limpeza completa desse invólucro humano que carrego há mais de três décadas – e a quem cada vez mais aceito do jeito que é. Obrigada, L’ôve.

A etapa final do meu ritual aquo-terapêutico é livre de obrigações: nada a esfregar, enxaguar ou desembaraçar. Era nessa hora que, quando criança, eu gritava pra minha mãe: “terminei!! mas quero ficar mais um pouquinho!”.

Hoje não peço permissão a ninguém. Sem pudor, deixo a água me envolver por inteiro. Quando o cansaço é tamanho, me entrego à gravidade e, de pé, abraço meus joelhos, disponibilizando todo lombo àquela massagem feita sem o uso de nenhuma mão. Relaxo os músculos, abro meus poros, dilato a mente e desembaraço problemas. É quando me entrego assim que a vida parece mais administrável, diante apenas da pressão da água caindo do chuveiro, a versão urbana de uma cachoeira, tendo como testemunhas meus produtos capilares e uns condicionadores viúvos cujos xampus correspondentes já se foram.

Após algumas hesitações, finalmente tomo coragem e interrompo o fluxo da minha cachoeira domiciliar, num ato que determina o término daquele ritual tão trivial, porém precioso. De pontas duplas seladas, mente hidratada e ideias renovadas, me entrego ao abraço da toalha. Assim é meu ritual de limpeza da derme, epiderme e de tudo mais que me concerne.

Texto: Natália Godoy – imagem: arquivo pessoal

 

3 comentários sobre “Nua e crua: a verdadeira razão dos meus banhos tão demorados

  1. Andressa disse:

    É exatamente o tipo de escrita que amo! Tão descritiva e detalhada que eu me perco na narrativa sem nem perceber. Obrigada por me oferecer suas palavras. Aguardo pelo seu livro.

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