O que os brasileiros no exterior e a jornada do herói têm em comum?

Se a sua vida como brasileiro no mundo fosse roteirizada, há grandes chances de que a estrutura da narrativa seguisse a Jornada do Herói. Caso você tenha assistido Rei Leão, Aladim, Star Wars, Matrix ou Harry Potter, já foi exposto a ela. Se você conversou com algum brasileiro que deu certo no exterior, também.

Não faz ideia de que diabos estou falando? Abaixo dividi a Jornada do Herói, criada por Joseph Campbell, em 10 momentos. Desafio você, amigo imigrante/intercambista/amigo nômade, a não se identificar. Alerta: contém spoilers.

1. O Chamado

Na ficção, é quando o personagem se sente convocado a participar de uma aventura além da vida comum, banal e previsível com a qual esta acostumado. Na vida, pode até acontecer quando você está de bobeira esperando o busão, mas normalmente o que impele o movimento é algum evento impactante. Faça uma enquete rápida com seus amigos e descubra que quase sempre tem um assalto, demissão, stress ou desgosto com o governo envolvidos na decisão de passar uma temporada fora.

A primeira reação é tentar ignorar esse desejo, já que isso significa trocar a zona familiar pelo incerto. O problema é que o sapato continua apertando, até que a gente opta por gemer em outra língua.

2. Ajuda

Aceitar esse chamado é um ato de coragem, e mesmo que você se aventure em modo solo, não quer dizer que precisa passar pelos perrengues sozinho. Nas telinhas, o personagem principal busca um mentor que o auxilie durante a transição. Na vida, o aspirante a imigrante em geral povoa as redes sociais atrás dos seus semelhantes. Também é comum encontrá-los em fóruns e comunidades virtuais repetindo perguntas batidas que podem ser encontradas em qualquer pesquisa no Google – ou, melhor ainda, sanadas com uma simples visita a agência de intercâmbio mais próxima.

3. A Partida

É dada a hora de finalmente deixar o território familiar, que pode até estar uma bosta, mas ao menos é a famosa merda quentinha. Enquanto na ficção as cenas são quase sempre ligeiras, na vida real são as mais intensas, dolorosas e cheias de expectativas. Bate o desespero por não saber como faz para viver sem Toddy, sem o pão na chapa, cerveja barata ou tudo aquilo para o qual você nunca deu a mínima – até se dar conta que vai perder. (Isso vale para coisas e pessoas.) Nesse momento vale ativar o superpoder do desapego.

4. Desafios Iniciais

Uma vez chegado no destino, o herói começa a ser posto à prova através de pequenos grandes contratempos e obstáculos. É provável que esse seja o momento em que a gente desenvolve o superpoder da simpatia: para cada pergunta feita, emitimos um hehehe como resposta.

Embora não pareça, esses obstáculos o prepararão para maiores provações (busca por um lugar onde morar, um emprego para te pagar, um crush a quem crushar).   

5. Aproximação da Caverna Secreta

Em face dessa necessidade de treinar mentalmente as falas mais básicas antes de pedir um mero café (e ainda assim pedir errado), o herói pode se sentir impotente. Nesse momento há um recolhimento no qual se questiona a decisão tomada.

Ao mesmo tempo em que você se pergunta por quê diabos foi atrás de sarna pra se coçar, também pode rolar uma piração das boas, quando você se belisca e se acha foda por conseguir se bancar (mesmo que aos trancos e barrancos) sozinho, em outra cultura, tão longe de casa.

O heroísmo vida real também pode intercalar essas duas sensações. Independente disso, a pausa é essencial para o ganho de fôlego para o que está por vir. (Você queria uma aventura? Então toma!)

6. A Provação

O momento mais temido da jornada, quando as sombras vêm à tona e o herói é posto em um teste físico de intensa dificuldade. (Sim, trata-se daquele job pesado na obra ou na limpeza.) Também há a necessidade de enfrentamento de algum inimigo mortal (oi, imigração) e há que se resolver um sério conflito interno (a famosa bad que bate e a gente não sabe se é saudade, fome ou visto vencendo). Embora seja difícil de perceber na hora, esse é o momento mais transformador. Superpoder ativado: SeguraNaMãoDeDeus e vai.

7. Os Tesouros

Depois dessa sequência de tiro, pancadaria e porradaria nada mais merecido do que o recebimento do prêmio. Certeza que você está pensando no visto, né não? Esse é, afinal, o troféu mais manjado na comunidade dos imigrantes brasileiros, o assunto mais certeiro na roda dos conterrâneos, o atestado de que você venceu todas as provas de resistência.

Como o herói não é bobo nem nada, sabe que não faz sentido depositar todas as expectativas de vitória em algo que não depende apenas dele mesmo. Por isso há muitos heróis que ressignificam seus “tesouros” e descobrem que a transformação pela qual passaram e a pessoa na qual se tornaram são recompensas grandes o suficiente. Desafio qualquer agente de imigração a contestar.

8. O Retorno

No caminho de volta é preciso escolher entre a realização do um objetivo pessoal ou um bem coletivo maior. Na cartilha do herói tupiniquim, o velho e conhecido dilema: voltar e lutar pelo meu país ou ficar e viver uma vida que faça mais sentido para mim.

Decisão tomada, a sensação geral deve ser de missão cumprida. De agora em diante, o herói finalmente se vê apto a materializar seus projetos e expressar no mundo sua verdadeira essência.

9. Ressurreição e Nova Vida

Já diziam as grandes mentes da humanidade que a vida só acaba quando termina. Assim, quando tudo parece estar resolvido e as batalhas ganhas, os inimigos ressurgem. (Normalmente esse é o momento do filme em que eu já estou cansada de tanto embate e quero mais é que todo mundo morra para eu poder dormir.)

O herói enfrenta os adversários e vence a disputa, salvando não apenas a própria pele mas a comunidade, família, o mundo – finalmente fazendo jus ao título. Se você, migo imigrante, almeja ser um, sugiro que encontre meios de se tornar um agente de transformação da sociedade (não precisa ser coaching, mas também pode ser). A outra opção é viver para pagar boletos, tirar férias e tentar emagrecer.

10. Finalmente, Final Feliz

Essa é a hora de viver a nova vida e ganhar reconhecimento. Ao retornar para suas origens, o herói é aclamado e todos vangloriam seu sucesso. Na vida real, não sei exatamente como isso acontece, se é que acontece. O final feliz do cinema, afinal, serve para alegrar o expectador e garantir sucesso de bilheteria. O cidadão de bem não precisa disso. Aliás, ninguém precisa ser herói para ter uma vida interessante, ainda que seja inevitável se identificar com alguns aspectos dessa jornada.

Bom, o roteiro está mais ou menos dado. E aí, vai ser comédia, drama, aventura ou terror?

Texto: Natalia Godoy – @suaconterranea

Um comentário sobre “O que os brasileiros no exterior e a jornada do herói têm em comum?

  1. Adriana disse:

    Gente, tu escreve muito 😉 Deveria ser escritora… Te descobri só agora por intermédio de vídeos da Márcia sobre viver na Austrália para ter informações para meu filho de 18 anos e vim te procurar… Teu texto flui, é bom de ler, e o melhor sempre faz todo sentido com um jeito peculiar de escrever, solto… Adorei estas analogias , continua a escrever , tu é um talento nato!

    Curtir

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